Ensaio

A imaginação ativa no processo criativo do escultor Jorge Luis Vargas Gaitán

tiosantos · 2013 / 2026 · derivado de monografia de especialização, Universidade Anhembi Morumbi, sob orientação da professora Silvia Anspach

Resumo

Este artigo, derivado de monografia de especialização defendida em 2013, investiga a presença da imaginação nas etapas do processo criativo, tomando como caso a produção escultórica de Jorge Luis Vargas Gaitán, artista peruano radicado em Diadema, São Paulo. O estudo mobiliza três concepções de imaginação, a reprodutora da tradição filosófica, a criadora de Gaston Bachelard e a ativa de Carl Gustav Jung, e as confronta com a análise de três obras do escultor, construída a partir de conversas realizadas em seu ateliê entre 2012 e 2013.

Palavras-chaveimaginação; processo criativo; escultura; inconsciente coletivo; Jorge Luis Vargas Gaitán.

1. Introdução

Este artigo, derivado de monografia de especialização defendida em 2013 na Universidade Anhembi Morumbi, sob orientação da professora Silvia Anspach, investiga a presença da imaginação nas etapas do processo criativo, tomando como caso a produção escultórica de Jorge Luis Vargas Gaitán, artista peruano formado pela Escola Superior de Belas Artes Macedônio de La Torre, em Trujillo, e radicado em Diadema, São Paulo, onde atua como artista e produtor cultural.

A hipótese que orienta o estudo é a de que a imaginação não se restringe ao impulso inicial da criação. Ela antecede o ato artístico, acompanha sua realização e permanece na obra concluída, conferindo-lhe novos significados. Para examiná-la, o trabalho mobiliza três concepções de imaginação. A imaginação reprodutora da tradição filosófica, sintetizada por Marilena Chauí, serve de contraponto às duas concepções que fundamentam a análise, a imaginação criadora de Gaston Bachelard e a imaginação ativa de Carl Gustav Jung.

Quanto ao método, trata-se de estudo de caso qualitativo, de caráter exploratório, construído a partir de visitas ao ateliê do artista e de conversas realizadas ao longo de 2012 e 2013. As conversas não foram gravadas; os relatos do artista aqui apresentados foram reconstituídos a partir de minhas anotações e de minha memória, razão pela qual aparecem sempre em discurso indireto. O texto final foi apresentado ao artista, que autorizou sua publicação e confirmou os dados biográficos aqui apresentados.

2. Três concepções de imaginação

A palavra imaginação carrega uma ambiguidade antiga. No uso comum, ela tanto nomeia a capacidade inventiva que admiramos nos artistas quanto serve de acusação, quando dizemos que algo é pura imaginação, exagero, invencionice. Este ensaio percorre três dimensões dessa disputa. Primeiro, a concepção da tradição filosófica, que fez da imaginação uma serva da percepção. Depois, a virada proposta por Gaston Bachelard, que a devolveu ao trabalho criador. Por fim, a formulação de Carl Gustav Jung, que fez dela um caminho para o inconsciente.

A imaginação criadora de Bachelard

Para Bachelard, o poeta verdadeiro não se contenta com uma imaginação que apenas evoca o já visto. Ele quer que a imaginação seja uma viagem, um convite ao devaneio dinâmico que põe o ser em movimento. O filósofo distingue duas imaginações. A formal opera com as formas visíveis e nasce da postura do homem como espectador. A material nasce da vontade de transformar a matéria, e é nela que o trabalho do artista ganha o centro da cena. A matéria, escreve ele, resiste e cede como uma carne amante e rebelde.

A imaginação ativa de Jung

Se Bachelard devolveu a imaginação ao trabalho criador, Jung a levou para dentro. A imaginação ativa consiste em suspender momentaneamente o juízo crítico e permitir que emoções, fantasias e imagens emerjam do inconsciente, confrontando-as como se estivessem objetivamente presentes. Nela, o terapeuta não dirige. O caminho pertence ao sujeito, que deve tornar-se protagonista da própria experiência psíquica. Dois conceitos completam o instrumental desta pesquisa, o inconsciente coletivo, camada impessoal da psique comum a toda a espécie, e o arquétipo, figura que reaparece ao longo da história sempre que a imaginação criativa se expressa livremente.

3. O escultor e suas imagens

Jorge Luis Vargas Gaitán

Jorge Luis Vargas Gaitán nasceu em 15 de agosto de 1963, na província de Cajabamba, no Peru. Na infância, nada indicava um futuro nas artes. Como as outras crianças, gostava de brincar com barro, e fazia tijolos em miniatura usando caixinhas de fósforo como molde. A tia era dona de uma padaria, e foi com a massa do pão que ele aprendeu a modelar seus primeiros homenzinhos e bichinhos.

A formação veio depois, na Escola Superior de Belas Artes Macedônio de La Torre, em Trujillo, onde a primeira disciplina foi anatomia. Para Vargas, toda expressão funciona à base de músculos, e é o exagero controlado da forma que transmite força, tristeza ou alegria.

Em janeiro de 1991 chegou ao Brasil. Radicado em Diadema, São Paulo, passou a atuar como artista e produtor cultural. Seu processo de trabalho percorre três etapas. Tudo começa na modelagem, quase sempre em argila, quando a figura nasce sob os dedos e ganha expressão, gesto, tensão muscular. Da peça modelada extrai-se então um molde, em gesso, silicone ou fibra de vidro, que captura a forma e permite reproduzi-la. Por fim vem a fundição, quando a obra encontra seu corpo definitivo em resina, marmorite ou bronze. A argila é, para Vargas, o material de maior sensibilidade e maleabilidade, aquele em que a mão pensa.

Amor filial, ou a imagem que corrige o pesquisador

Amor filial, Jorge Luis Vargas Gaitán

A série Amor filial apresenta duas figuras masculinas em diálogo, modeladas em contornos geométricos bem marcados, uma sentada em nível mais alto, a outra próxima, em atitude de escuta e aconselhamento. Perguntado sobre as motivações da obra, Vargas interrompeu por um instante o trabalho. O que veio em seguida não foi uma explicação de ateliê, mas uma confidência. Na adolescência, contou, teve dificuldades de relacionamento com o pai. Eu testemunhava, ali, o momento raro em que um homem fala daquilo que suas mãos vinham dizendo há anos.

Diante desse relato, formulei uma hipótese e a apresentei ao artista. As figuras seriam ele próprio e seu pai, e a escultura realizaria, pela imaginação, o encontro de aconselhamento que nunca aconteceu. A resposta de Vargas me surpreendeu. Talvez, disse ele, a obra representasse ele mesmo e o próprio filho, que enfrentavam os mesmos problemas.

Fique registrado, então, que aqui eu tropecei no próprio método que estudava. Mas foi um tropeço fecundo.

Ao oferecer ao artista uma interpretação pronta, fiz exatamente aquilo que a imaginação ativa desaconselha. Minha hipótese, porém, foi corrigida pela realidade psíquica do artista, que se mostrou mais complexa e mais dolorosa do que a leitura biográfica linear supunha. O filho que não conversou com o pai via-se agora pai que não conversava com o filho. E das mãos desse homem surgiu, ainda assim, uma imagem de entendimento e conciliação.

Vovó, ou o arquétipo que o artista não sabia ter esculpido

Vovó, Jorge Luis Vargas Gaitán

A escultura que Vargas chama de Vovó representa, na descrição do próprio artista, uma senhora idosa, possivelmente aposentada, descansando ao sol no centro de Cuzco. A figura está sentada, curvada sobre as pernas, e seu rosto não pode ser visto.

Até aqui, a leitura do artista. A camada seguinte é minha. Observando a forma da escultura, chamou-me a atenção sua semelhança com as múmias incas, que nos rituais funerários eram enterradas sentadas e, na maioria das vezes, curvadas sobre as pernas. O próprio artista nunca mencionou essas imagens, e seria imprudente afirmar que elas participaram conscientemente da criação. Mas é justamente esse silêncio que torna o caso interessante para a leitura junguiana. Vargas, peruano de Cajabamba, esculpiu uma anciã de Cuzco na postura exata das múmias de seus ancestrais.

Cristo, ou a imaginação contra o modelo

Cristo, Jorge Luis Vargas Gaitán

A representação do Cristo é talvez o exemplo mais nítido, no conjunto estudado, da imaginação operando contra o modelo recebido. A iconografia tradicional apresenta Jesus com os braços fixados na cruz. O Cristo de Vargas se solta. Na concepção do artista, ele se esforça para libertar-se dos pregos, em posição de revolta e angústia, preso quando quer estar entre os homens.

As motivações da obra, segundo o artista, remontam à sua infância e adolescência, período de crises na afirmação de sua individualidade e de sua fé. O gesto de Vargas foi submeter a imagem herdada à imaginação criadora, a vontade transformando a matéria e, com ela, o próprio símbolo.

4. Considerações finais

Nas obras de Jorge Vargas, a imaginação apareceu antes do ato artístico, no longo intervalo em que as imagens recolhidas nas ruas do Peru e do Brasil amadureceram em silêncio até pedirem forma. Apareceu durante a realização, na mão que pensa a argila. E permaneceu depois da obra pronta, conferindo-lhe significados que o próprio artista não havia previsto, como mostrou a anciã de Cuzco. Em Amor filial, a escultura funcionou como imaginação ativa em matéria. No Cristo que se solta da cruz, a imaginação criadora trabalhou contra o modelo recebido, transformando a imagem herdada em interrogação.

Este é um estudo de caso único, e essa foi uma escolha, não uma limitação sofrida. No percurso de Jorge Vargas, a imaginação se mostrou presente em todas as etapas da criação, e as concepções de Bachelard e Jung se revelaram instrumentos fecundos para compreendê-la.

Resta uma última palavra, que já não é de análise. Depois de acompanhar de perto o trabalho de um escultor, aprendi que o tempo da imaginação não é um só. Ela é passado, quando mergulha no fundo comum da psique e traz de lá o conhecimento, o medo e a fúria dos ancestrais. É presente, quando no instante apreende e recria a realidade. E é futuro, quando se projeta na busca de uma expressão ainda sem nome. Foi isso que vi nascer, tantas vezes, sob as mãos de Jorge Vargas.

Referências

ANSPACH, Sílvia. Entre Babel e o Éden: criação, mito e cultura. São Paulo: Annablume, 1998.

ANSPACH, Sílvia. Arte, cura, loucura: uma trajetória rumo à identidade individuada. São Paulo: Annablume, 2000.

BACHELARD, Gaston. O direito de sonhar. Tradução de José Américo Motta Pessanha et al. 2. ed. São Paulo: Difel, 1986.

BACHELARD, Gaston. O ar e os sonhos: ensaio sobre a imaginação do movimento. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

BACHELARD, Gaston. A terra e os devaneios da vontade: ensaio sobre a imaginação das forças. Tradução de Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2000.

JUNG, Carl Gustav. O espírito na arte e na ciência. Petrópolis: Vozes, 1985.

VON FRANZ, Marie-Louise. C. G. Jung: seu mito em nossa época. São Paulo: Cultrix, 1992.

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