Comentário cultural
22 de julho de 2026
Arte, preconceito e o que o tempo revela
O Brasil voltou a discutir os limites entre liberdade artística e responsabilidade social. O estopim foi uma entrevista do cantor João Bosco ao Estadão, pelos seus 80 anos. Ele criticou os movimentos identitários e afirmou que quem questiona músicas antigas por retratarem violência contra a mulher precisa ser melhor medicado, defendendo Gol Anulado, parceria com Aldir Blanc de 1976 cuja letra descreve agressão contra a mulher. Para o compositor, a música é crônica, registro poético de um tempo, e não deve ser lida como manual de conduta. O argumento é antigo e não resolve tudo. Obras que romantizam a violência contra a mulher não deixam de fazer estrago só porque foram escritas com intenção poética.
Na literatura infantil, Menina Bonita do Laço de Fita, de Ana Maria Machado, clássico distribuído em escolas desde 1986, também acumula leituras incômodas. A intenção da obra é antirracista, e nisso não há dúvida. Mas o texto e as ilustrações carregam contradições que o tempo foi revelando. A mãe da menina aparece desenhada de forma muito sensual, o oposto da imagem de mães brancas em livros infantis. A ninhada de coelhos que celebra a miscigenação não tem nenhum coelho realmente preto, apenas marronzinhos. E se não fosse pela companhia do coelho e de sua mãe, a menina seria uma criança solitária, sem nenhum vizinho humano que viesse brincar com ela. Na história, a menina negra existe como objeto de admiração, mas é o coelho branco quem age, quem pergunta, quem busca e quem realiza o sonho de ter uma filha pretinha. A protagonista, no fundo, protagoniza pouco.
Obras nascem dentro de um tempo e carregam as suas contradições. Reconhecer isso não é cancelar ninguém. É ler com os olhos abertos. E vcs o que acham?
★ tiosantos
Envie seu comentário
Comentário enviado. Obrigado!