O teatro entrou na minha vida pela Biblioteca Pública Municipal Viriato Corrêa, na Avenida Sena Madureira, no bairro da Vila Mariana, em São Paulo, cidade onde vivi toda a minha infância. Foi lá que assisti ao primeiro espetáculo de teatro infantil que vi na vida, Pluft, o Fantasminha. O espetáculo me tragou para um universo que eu não conhecia e, quando terminou, reconheci aquela experiência como única, envolvente e transformadora. Nunca mais fui o mesmo.
Cheguei a Diadema no final dos anos 1970 e tomei contato com o Teatro Escola, espaço vibrante que funcionava nos fundos da Paróquia Matriz, na Avenida Antônio Piranga. Aquele espaço não havia surgido do nada. Desde 1973 a prefeitura mantinha uma Divisão de Cultura, criada na gestão do prefeito Ricardo Putz, e foi Leda Sylvia Szochalewicz, nomeada Chefe dessa Divisão, quem transformou o antigo cinema paroquial num espaço de formação teatral. Os mais antigos do espaço gostavam de repetir que tudo havia começado com um propósito claro. Formar público, oferecer aos trabalhadores um lugar de lazer e cultura e abrir perspectiva para a molecada não ficar na rua. Mas o que eu encontrei quando cheguei era algo maior do que um projeto de política pública. Era um organismo vivo.
Era uma caixa preta, escura e compacta, e justamente por não ser grande a acústica funcionava de um jeito que muitos espaços maiores nunca conseguem. Uma sala feita para o teatro. Ali circulavam figuras que marcariam a cultura da cidade, entre elas a própria Dona Leda, professora rigorosa e escritora, que trouxe para aquele palco o ainda não tão famoso diretor Ulysses Cruz, e também Dulcemar Vieira. Dulcemar era uma das figuras mais singulares daquele ambiente. Com o espetáculo AEIOU, venceu festivais de teatro infantil e consolidou em Diadema uma linguagem cênica própria, acolhedora e criativa. O Teatro Escola era um espaço que se retroalimentava entre quem ensinava e quem aprendia, entre quem fazia e quem assistia. O público que frequentava aquele espaço era feito em grande parte de migrantes do Norte, do Nordeste e de Minas, pessoas que traziam no imaginário uma cultura popular viva, que haviam chegado a Diadema com suas histórias e suas referências, e que encontraram ali um lugar onde tudo isso era reconhecido e valorizado.
O grupo Rodama, criado naquela década sob a direção de Alberto Chagas, já era uma referência consolidada na cena cultural de Diadema. O nome diz muito sobre o espírito do grupo. Rodama é amador ao contrário, e aqui vale uma explicação. No teatro, amador não é sinônimo de improvisado ou despreparado. Amador vem de amor, é aquele que representa por gosto, sem esperar remuneração pela sua presença. Inverter a palavra era uma forma de afirmar isso com orgulho. No teatro amador, cada integrante é ao mesmo tempo ator, cenógrafo, iluminador e figurinista, todas as etapas de uma montagem feitas de forma colaborativa e sem esperar remuneração. Era exatamente assim no Rodama, e era exatamente nisso que estava a sua força.
No início dos anos 1980, a prefeitura iniciava as obras do Centro Cultural Diadema, que abrigaria o Teatro Clara Nunes. O nome do teatro foi escolhido por eleição popular, e a disputa foi muito movimentada. As escolas participaram, os bairros participaram, e a grande batalha se deu entre três nomes, Elis Regina, Clara Nunes e Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha. As duas cantoras haviam partido recentemente e a cidade queria homenageá-las. Vianinha, referência do teatro político brasileiro, havia morrido em 1974, e sua presença na disputa dizia muito sobre o espírito daquele movimento cultural. Clara Nunes venceu por margem estreita. Anos depois vazou uma história que mudou um pouco a leitura desse resultado. Um guarda patrimonial da prefeitura, profundo admirador de Clara Nunes, fazia o plantão noturno justamente onde estava a urna que deveria proteger. Durante seus turnos, ele havia fraudado a votação em silêncio, garantindo a vitória da cantora. Ninguém soube na época. O segredo durou até ele mesmo não aguentar mais guardá-lo, e começar a se vangloriar nos bares, entre uma bebida e outra, de ter batizado o Teatro Clara Nunes. Verdade ou lenda, a história ficou. E o teatro também.
Com a inauguração desse novo espaço, jovens de vários grupos passaram a realizar ensaios e montar espetáculos ali, num movimento que renovava a cena cultural da cidade. Fiz parte desse movimento como colaborador e aluno, integrando grupos que ora ensaiavam no Teatro Escola à beira de encerrar suas atividades, ora montavam espetáculos no Teatro Clara Nunes. Quando o PT assumiu a prefeitura de Diadema, esse movimento ganhou ainda mais impulso. O PT trouxe para a gestão da cultura uma diretriz que não existia antes com essa clareza, a de que cultura não era ornamento, era política pública, e devia chegar a quem nunca havia tido acesso a ela. A sensação era de que finalmente estava nas nossas mãos a possibilidade de transformar as coisas. Falávamos de política, comportamento, sexualidade, história, sindicalismo, educação e cultura popular. E saíamos pelos bairros com isso tudo dentro da mala.
O que eu via nesses encontros era difícil de nomear, mas fácil de reconhecer. A comunidade ganhava cor e vida. Jovens e adultos descobriam talentos que não sabiam que tinham, e começavam a se perguntar quem eram, ou a buscar essa resposta. As praças e as ruas viravam espaços de festa e convivência, famílias celebravam juntas, crianças que não tinham nada viravam público, depois viravam participantes. Para os mais vulneráveis, a arte funcionava como refúgio e como esperança. E havia algo mais, que eu sentia mas demorei a conseguir descrever. Era a afirmação dos corpos, dos cabelos black, das tranças, da roda de samba, do forró. As pessoas chegavam e se reconheciam no que viam. Não era só entretenimento. Era um espelho.
Foi nesse contexto que fiz minha estreia com o grupo Rodama, levando à cena Um Território Chamado Acre, obra escrita por Nelson J. S. Solha e Celso dos Santos Solha, com direção de Alberto Chagas, que havia sido aluno de Dona Leda no Teatro Escola. O texto abordava a construção histórica, social e política do Acre, do processo de anexação ao Brasil às transformações do Ciclo da Borracha. Eu interpretei Plácido de Castro, e foi exatamente a complexidade desse homem que me atraiu. Com 27 anos, ele liderou uma revolução de seringueiros contra um exército boliviano de quase cem mil soldados, movido por ideais que iam além da própria pátria. Não era um herói de manual. Havia lutado na Revolução Federalista contra Floriano Peixoto, recusado a anistia e ido viver como agrimensor no Acre. E havia um preço por tudo isso, a traição dos que o cercavam, o isolamento no fim da vida, e a morte covarde, assassinado pelas costas por um antigo subordinado. Ele mesmo disse, ao agonizar, que tanta ocasião gloriosa haveria para ele morrer. Era essa humanidade frágil e teimosa que faz a jornada de qualquer ator ou atriz ser tão poderosa.
Naquele espírito genuinamente amador, ficamos nós mesmos encarregados de conceber e construir o cenário, sob coordenação de Adílio Oliveira, figura central do Rodama que acumulava com naturalidade as funções de ator, cenógrafo, iluminador, motorista e sonoplasta. No grupo, Adílio era o faz-tudo, no melhor sentido que essa expressão pode ter. Para o espetáculo, resolvemos construir o cenário em madeira, desmontável, com praticáveis em três planos. A ideia era prática, já que deveríamos montar e desmontar o cenário nos diferentes espaços de apresentação. O problema é que a madeira comprada era pesada, e cometemos um erro que só percebemos na hora errada, não havíamos feito marcações nas peças. Depois do ensaio geral tivemos que desmontar tudo e liberar o palco, já que a estreia seria apenas na semana seguinte. Quando voltamos para montar, o cenário havia se transformado num enorme quebra-cabeça sem indicações. Levamos mais de oito horas para encaixar tudo, enquanto o público já começava a chegar na portaria do teatro. Foi o nosso batismo como cenógrafos, e o último cenário pesado que construímos sem marcação.
A montagem experimentou o Sistema Coringa, estratégia teatral criada por Augusto Boal no Teatro de Arena nos anos 1960, originalmente concebida para driblar a censura da ditadura militar. No sistema, um mesmo ator interpreta diferentes personagens ao longo do espetáculo, quebrando a identificação do público com um único protagonista e provocando uma leitura mais crítica da realidade. Desse espetáculo de forte discurso político participou, como um dos protagonistas, Vladão Trombini, que anos depois viria a se tornar vereador pelo PCB. Em cena, Vladão era um ator excelente, e seu empenho dentro do grupo acabou por fazê-lo assistente de direção de Alberto Chagas. Mais tarde dirigiu ele próprio montagens da obra de Plínio Marcos que produziram forte impacto na formação política de todos nós.
O elenco se alternava também em espetáculos infantis e de cultura popular. As apresentações aconteciam no Teatro Clara Nunes, mas também em espaços comunitários, associações de bairro, escolas e igrejas. Havia ainda um dos primeiros projetos do então Departamento de Cultura, o Conquistando Nosso Espaço, pelo qual os grupos eram levados a se apresentar nos bairros da cidade. A prefeitura cedia um caminhão de prancha que servia de palco, sonorizado por dois ou três microfones de captação geral. Era simples, mas funcionava. Em uma das apresentações, estacionamos o caminhão em frente à calçada da UBS Jardim ABC, na Avenida das Ameixeiras, que nos cedeu uma sala para fazer as vezes de camarim. Começamos no fim da tarde e o público foi crescendo conforme os trabalhadores saíam das fábricas e se juntavam na frente do caminhão.
Como estávamos na rua e o público era grande, os que ficavam no fundo mal ouviam as falas dos atores. Uma das atrizes, percebendo a dificuldade e ciente de que sua projeção de voz não alcançaria todos, resolveu se posicionar perto do microfone de captação durante as falas dos outros, já que teria uma fala em seguida. O problema é que nesse esforço de se posicionar e ser ouvida, quando chegou a sua vez de falar, deu um branco. É o que se diz quando um ator ou atriz esquece o texto. O público percebeu e gargalhava enquanto o elenco improvisava para continuar o espetáculo. Eram essas as coisas que o teatro na rua ensinava, e que nenhum ensaio consegue prever. Em outra apresentação, usávamos a casa de um morador como camarim. Ao fim do espetáculo, as crianças e o público não nos deixavam ir embora. Nos abraçavam, nos apertavam, chegaram a rasgar nossas roupas. Para aquelas pessoas, ver teatro era uma experiência completamente nova, e isso foi transformador para todos nós.
Na metade dos anos 1980, tive a oportunidade de trabalhar diretamente com a mestra Leda Sylvia Szochalewicz e com Alberto Chagas, que viria a se tornar o principal ator e diretor de Diadema, com participações em produções como o longa Boleiros, Era Uma Vez o Futebol... (1998) e O Príncipe (2002). Os três formamos um núcleo teatral. Os ensaios aconteciam na casa de Dona Leda, no bairro do Eldorado, uma casa ampla de classe média alta, com fundo que dava acesso à Represa Billings. Havia um cômodo inteiro dedicado a figurinos de muitas montagens que ela havia realizado ao longo da vida, uma espécie de arquivo vivo do teatro que ela carregava consigo. Generosa, sempre nos oferecia um lanche ao final dos ensaios, e esse lanche obrigatoriamente incluía Prosecco ou Champagne. Dona Leda era assim, uma figura singular, rigorosa, exigente e elegante, absolutamente dramática no melhor sentido, e não poupava ninguém nos ensaios.
Lembro de uma cena de capa e espada que eu fazia com o Alberto, quando ela parou tudo e foi direta. "Você é horrível, vai fazer outra coisa!" Na pausa seguinte voltei e fiz exatamente a mesma cena, sem mudar nada. Ela não disse mais nada. Aprendi mais naquele silêncio do que em muitos ensaios. Aquela dureza era uma forma de ensinar, e quem aguentava entendia o recado: insistir.
Fizemos uma montagem irreverente do clássico Branca de Neve e os Sete Anões. Dona Leda vivia a Branca de Neve, Alberto acumulava o Príncipe, a Bruxa e todos os Sete Anões, e eu fazia o Caçador e o Lugar-Tenente. Numa das apresentações, quando a Bruxa saiu de cena correndo para trocar de personagem, Alberto entrou como Príncipe sem ter tirado a mão de bruxa do braço. As crianças na plateia começaram a chorar de verdade. Ele teve que improvisar para acalmar o público. São essas as coisas que o teatro ao vivo ensina e que nenhuma sala de aula consegue substituir. Apresentamos o espetáculo em colégios de elite como o Emilie de Villeneuve e em muitas escolas públicas, levando aquela alegria para crianças que raramente tinham acesso a esse tipo de experiência.
No final dos anos 1980, a prefeitura de Diadema promoveu uma reorientação na política cultural da cidade, investindo na readaptação de antigos prédios públicos de saúde e educação para se tornarem Centros Juvenis de Cultura. A decisão de estabelecer um centro cultural em cada bairro mudou a escala de tudo. Até então, mesmo com o forte sentimento de pertencimento e a base comunitária das nossas ações, não tínhamos um espaço fixo em cada território para estabelecer a cultura como prioridade, como porto seguro para encontros, experimentações e oficinas. A ambição da gestão era que esses centros fossem muito mais do que equipamentos culturais. Deveriam ser espaços de formação onde a juventude, estudantes e artistas, pudesse usar o teatro, a música, a dança e a literatura para debater os problemas concretos da realidade brasileira.
Com os centros nos bairros, esse desejo ganhou escala. O debate público sobre cultura se fortaleceu e se legitimou, e foi essa base que criou as condições para a criação da Secretaria de Cultura, para a construção dos canais institucionais como o Fundo Municipal de Cultura e o Conselho de Cultura, e que mais tarde permitiu a Diadema integrar o Sistema Nacional de Cultura.
O movimento foi alimentado pela chegada de professoras e professores de teatro dos mais diferentes perfis e trajetórias, e os grupos formados nessas oficinas rapidamente ganharam projeção, participando de festivais em todo o estado e conquistando prêmios. Entre eles, os Jovens Atores de Diadema, sob direção de Luiz Nunes, foram além das fronteiras da cidade. Com O Genro de Muitas Sogras, de Artur de Azevedo, conquistaram prêmios em festivais como os de Bragança Paulista, Penápolis e Ourinhos. Nessas apresentações o grupo era acompanhado pelo Tem Japonês no Choro, conjunto de choro de Diadema formado por Vanderlei Cesário na flauta, Cláudio Silva no trumpete e percussão, José Assunção e Toninho Miranda na percussão e Oscar Nakajima no violão. Lembro de uma ocasião em que o grupo participava de um Festival de Teatro em Bragança Paulista, com convite para a cerimônia de premiação e uma reapresentação do espetáculo para encerrar o evento. Segui antes de carro com Luiz Nunes, e o grupo viria em seguida de ônibus. Chegamos mais cedo e recebemos a notícia, o ônibus havia quebrado na metade do caminho. Um substituto havia sido acionado em Diadema, mas o tempo era incerto. O local estava lotado, com público e os outros grupos concorrentes nas diversas categorias, e nada dos Jovens Atores chegarem. A cerimônia começou. E aí veio a surpresa, o grupo começou a receber prêmio atrás de prêmio. Foram cinco, seis estatuetas. Luiz e eu nos revezávamos no palco para receber os troféus, e a cada discurso de agradecimento alongávamos ao máximo, repetindo a história do grupo, dos atores, do processo de criação, mesmo sendo advertidos pela organização para sermos mais breves. A estratégia era simples, esticar o tempo. E funcionou. O grupo chegou na entrega da última categoria e foi recebido com uma mistura de vaias e aplausos que ficou na memória de todo mundo que estava lá.
Esse período intenso de formação e experimentação foi o embrião do que viria a se tornar a Mostra de Artes e Cultura de Diadema, evento que consolidaria a cidade como referência cultural na região.
Por essa época eu havia entrado na prefeitura e iniciado minha carreira como agente cultural. Não foi uma decisão que tomei de uma hora para outra. Foi uma consequência natural de tudo que tinha vivido até ali, dos palcos improvisados nos bairros, dos ensaios com Dona Leda, dos grupos que iam surgindo pela cidade. A cultura tinha se tornado minha forma de estar no mundo e de entender as pessoas ao redor. O teatro foi onde aprendi isso pela primeira vez, e é ele que ainda hoje orienta o modo como trabalho, como escuto e como acredito que as coisas podem ser diferentes. Diadema me ensinou que cultura é essência. É o que uma cidade faz quando decide levar a sério os seus.